sábado, 26 de junho de 2010

A Geopolítica Hollywoodiana, ou algumas considerações sobre Alice no País das Maravilhas e Avatar

Sucessos recentes da indústria cinematográfica hollywoodiana, Alice no País das Maravilhas e Avatar, cada um a seu modo, tocaram em pontos delicados da pauta política das relações externas do governo dos Estados Unidos da América.
Avatar, filme dirigido pelo premiado diretor James Cameron – que há pouco esteve no Brasil apoiando indígenas e comunidades ribeirinhas, na região Amazônica, contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte; um cenário similar ao do filme – traz uma perspectiva crítica das relações entre certo tipo de imperialismo econômico e militarista e comunidades que, sem aparatos tecnológicos e outros recursos, tendem a ser subjugadas por aquele. É possível relacionar o relato fílmico de Avatar ao surgimento da antropologia, no século XIX. A ciência antropológica, em seu nascedouro, foi utilizada amplamente como instrumento de dominação dos povos afetados pelo imperialismo colonialista da época. Avatar sugere um processo de digressão do diretor. Para este, as potências ocidentais deveriam avaliar suas dinâmicas históricas e realizar um processo de mea culpa pelos erros do passado.
Já Alice..., filme do aclamado diretor Tim Burton, é uma releitura adaptada da obra homônima do escritor inglês Lewis Carroll – cujo texto original podemos entender como uma irônica metáfora de um mundo carregado de moralismos. Tal como no livro, o filme é ambientado na Inglaterra Vitoriana. A narrativa de Burton refere-se ao retorno, anos depois, da jovem e rebelde Alice ao País das Maravilhas, aonde lutará para destituir do poder a despótica Rainha Vermelha e restituir a ordem e a paz.
Bem, até aqui nenhuma novidade. Os mais diversos discursos políticos têm permeado, implícita ou explicitamente, o cinema desde O Nascimento de uma Nação (espécie de ode a supremacia racial branca nos EUA, dirigido pelo diretor D. W. Griffith) até o insuspeito Buena Vista Social Club (do diretor Win Wenders) - aonde as filmagens das ruas de uma decaída Havana e as memórias dos músicos, sempre trançando um quadro em que a música cubana e seus artistas eram mais reconhecidos em uma sociedade pré-Revolução, são verdadeiros panfletos contra o governo Fidel Castro-. A máxima “Imparcial só a câmera desligada!”, do cineasta brasileiro Silvio Tendler, é perfeitamente coerente quando nos referimos à contextos fílmicos.
Assim, prestando mais atenção aos dois filmes, apreendemos que ambas as personagens centrais possuem trajetórias de vida que tangem “curiosamente” a questões inerentes a atual política externa do governo americano.
Em Avatar, a personagem Jack Sully, um veterano de guerra, teria ficado paralítico após ações militares... na Venezuela!! Sim. O país do ditador Hugo Chaves, segundo o filme, teria se tornado um palco de intervenções armadas dos EUA. Aliás Jack não é o único: o famigerado Coronel Miles Quaritch e vários outros mercenários também teriam atuado por lá. A história narrada em Avatar assume, assim, ares futurológicos ao prever uma intervenção da maior potência militar do mundo ao país sulamericano. Essa “previsão” é interessante quando sabemos que o governo Chaves e sua Revolução Bolivariana, projeto de cunho “socialista” e “revolucionário” que se propagou para outros países da América Latina, são vistos com maus olhos pela política externa norteamericana, atualmente sob o comando da Secretária de Defesa Hillary Clinton.

                           Jack Sully e seu Avatar: ele teria ficado paralítico durante ações militares na Venezuela.

Por seu turno, Tim Burton, põe a jovem e intrépida Alice, após esta conseguir restaurar a ordem no País das Maravilhas, no papel de uma corajosa desbravadora dos mares cuja ambição é estabelecer linhas de comércio com... a China. Logo a China, atual concorrente dos EUA nas relações comerciais com o resto do mundo, e, com a qual os norteamericanos tiveram e têm várias diferenças não equacionadas nos fóruns políticos e econômicos internacionais.

              A jovem Alice: após restaurar a paz no País das Maravilhas, parte em busca do comércio com a China.

Porém, no ambiente histórico vivido por Alice, o século XIX, a China era um império fechado e sem o desenvolvimento possibilitado pela Revolução Industrial europeia e estadunidense. Como a fictícia Alice, aventureiros ocidentais apoiados por seus governos aportaram em solo chinês. No decorrer do século, o império seria subjugado aos interesses estrangeiros.
Localizadas em momentos históricos distintos, o passado Vitoriano e o “futuro distante”, as narrativas de Alice no País das Maravilhas e Avatar são condicionadas por questões políticas do presente. Nestas, podemos ver refletidas as políticas dos EUA no campo das relações internacionais.
Assim, a Indústria dos Sonhos que nos move e emociona, em sua formatação hollywoodiana, revela sua plena capacidade de continuar sendo o braço mais fluido do pensamento estratégico da sempre ambiciosa geopolítica estadunidense.

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