terça-feira, 29 de junho de 2010

Cenas Populares: A cidade de Salvador nos traços de Carybé

Eu amo a rua. Com esta singela, mas expressiva, declaração João do Rio – pseudônimo de João Paulo Barreto, um dos maiores cronista do Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX – principia a sua obra mais conhecida: A Alma Encantadora das Ruas, de 1908. O amor pela vida na urbe, suas histórias, seus habitantes, é relatado na obra. Tal paixão pelas vivências no espaço público representado pelas ruas é, também, encontrada com tamanha intensidade em Carybé – cujo nome verdadeiro era Hector Julio Paride Bernabó, um argentino de Lanús, região da Grande Buenos Aires.

 Dois momentos de Salvador: acima, a cidade real na primeira metade do século XX. Abaixo, a cidade transformada em arte pelos traços de Carybé.

Carybé externou em suas obras o gosto pelo contato com os tipos populares, retratados em mercados, nas rodas de capoeira, nas festas de rua e no lócus sagrado rito religioso afrobrasileiro, o Candomblé, na cidade de Salvador, Bahia. Assim, como o flâneur descrito por João do Rio, Carybé era individuo em constante movimento. Aberto para captar as cenas populares que, com aguda sensibilidade, imortalizou nos traços de suas imagens artísticas.

 Cena típica de um mercado (acima) e alusão a uma roda de samba (abaixo) : o povo em suas atividades na utilização do espaço público. Representações do cotidiano da antiga Salvador como fonte de informações e lugar de memória nas obras de Carybé.


As imagens de Carybé são carregadas de informações. As imagens artístico-pictóricas, figurando como acepção da realidade, admitem inferir uma concepção de meta-representação à medida que sua produção já é a representação do mundo do artista visto através de suas pinceladas, como bem argumentam Giovana Deliberali e Maria de Fátima Gonçalves*. E Carybé nos transmite, por meio de sua arte, conhecimentos sobre uma Bahia amorosa e envolvente que o encantou.

Roda de Capoeira: a cultura popular retratada na linguagem pictográfica de Carybé.

A mesma visão devocional é encontrada na pena de Jorge Amado. Este foi seu amigo de longa data. Carybé ilustraria muitos dos livros do escritor baiano. Em ambos, a alma pujante das ruas teria ressonância. O amor pelas coisas da Bahia, pela cultura popular e pela religião dos Deuses Africanos em terras brasileiras constituir-se-ia em vínculo permanente entre essas duas personalidades.

Cerimônia do Candomblé (Festa do Pilão de Oxalá): Carybé, na vida pessoal e artística, enfatizaria suas as relações com o sagrado

Sobre Carybé diria Amado: Os outros podem reunir dados físicos e secos, violentar o segredo com suas máquinas fotográficas e os gravadores e fazer em torno dele maior ou menor sensacionalismo, a serviço dos racismos mais diversos, mas apenas Carybé e ninguém mais poderia preservar os valores do candomblé da Bahia.


Carybé e Jorge Amado: personalidades irmanadas pela amor a Salvador e seus tipos populares.

Em Carybé, as cenas populares de uma, hoje mítica, Salvador são concretizadoras de memórias. A obra do artista, desta forma, consolida-se como um lugar de memória – tal qual a definição do historiador francês Pierre Nora** -. Esta poderá sempre ser acessada pela condição fenomenológica da contemplação da obra do artista.
Deixo aqui o convite: adentrar no universo imagético das ruas, da cultura popular e dos encantos e magias do candomblé da cidade de Salvador de Carybé.

 
Carybé em seu ateliê: arte centrada na vida dos tipos que preenchiam de vida as ruas de Salvador.






*MAIMONE, Giovana Deliberali; TÁLAMO, Maria de Fátima Gonçalves. Tratamento informacional de imagens artístico-pictóricas no contexto da Ciência da Informação. DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação – v. 9 n.2 abr. 2008.

** NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 1993.




Veja outras obras de Carybé:

Museu Afro Brasileiro de Salvador:
 http://www.ceao.ufba.br/mafro/carybe.htm

O Universo Mítico de Carybé:
http://entretenimento.uol.com.br/album/carybe_afrobrasil_album.jhtm





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segunda-feira, 28 de junho de 2010

... Beirut - Elephant Gun

Beirut é o nome da banda de Zach Condon, nativo de Santa Fe, Novo México, EUA . A banda combina elementos do Leste Europeu e do folk. Zach Condon tem o trompete e o ukelele como seus principais instrumentos, tendo sido impedido de tocar guitarra por conta de um machucado no pulso.
A música Elephant Gun foi tema de microssérie baseada em Capitu - romance de nosso maior escritor de todos os tempos, Machado de Assis -, exibida por uma emissora de tv brasileira, no ano de 2008. A música conquistou 0 2º lugar como TopMúsica (as mais procuradas) em vários sites brasileiros de letras de músicas.
O vídeoclip de Elephant Gun reúne uma melodia poderosa e sensível ao mesmo tempo, combinada com coreografias vigorosas e sensuais- mas, nada vulgar - e uma cenografia que beira o onirismo. Um dos mais bonitos trabalhos dos últimos tempos.


Obs: algumas informações foram adaptadas do site:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Beirut

Conheça o site oficial da banda em:

http://www.beirutband.com/

...Limites da Liberdade na Internet

O texto apresentado a seguir reverbera reflexões ainda atuais sobre as dinâmicas e os (ab)usos da internet. Espaço de mediações culturais e sociais, dentre outros fins lícitos, a internet corrobora para a aproximação entre os seus usuários. Embora existam, no presente, milhares de pessoas  excluídas do universo virtual, é inquestionável a onipresença da internet na contemporaneidade. A reflexão do texto enfatiza a busca da ética e da liberdade nas relações entre os indivíduos no ciberespaço - conceito relativo ao novo mundo surgido demiurgicamente com a internet.
Publicado no periódico eletrônico DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação, que é coordenado pelo Professor Doutor Aldo Barreto, Pesquisador Titular do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), em Fevereiro de 2000.

Compartilhe comigo esta reflexão.
Boa Leitura!


Limites da Liberdade na Internet
A liberdade na Internet se liga à liberdade dos fluxos de informação e à da própria interação com as estruturas de informação. A interatividade no ciberespaço, que não apenas favorece a troca de mensagens como, também, a sua apropriação e reformatação, modifica a sincronia dos nossos rituais cotidianos. Não necessitamos mais trabalhar simultaneamente, fazer compras ou estudar em certo horário. Foi-nos dada a liberdade no tempo cotidiano.
A interconectividade propicia o rompimento das fronteiras, e a contigüidade na Internet coloca o meu vizinho da sala ao lado tão próximo como o Dr. Niaar da Universidade de Tampere, na Finlândia. Foi-nos dada a liberdade nos espaços.

 
 A conexão com a Internet acelera os fluxos de informação, levando notícias em tempo real a qualquer parte do planeta. 

Contudo, esta mesma liberdade que, de resto, deve ser preservada, permitiu o surgimento de uma verdadeira zona de faroeste desvairado no ciberespaço. Freqüentemente, os direitos e as expectativas de muitos têm sido desrespeitados por uns poucos sedentos de fáceis lucros e benefícios midiáticos.
Entre os delitos mais comuns na Internet estão:
. os que atingem a propriedade intelectual
. a manipulação de dados ou programas, a fim de falsificar ou danificar dados e programas
. a divulgação, utilização ou reprodução ilícita de dados e programas, de sons e imagens
. o uso não autorizado de dados e informação
. o acesso não autorizado aos diversos tipos de sistemas de informação
. as manipulações para a obtenção, de maneira ilícita, de dinheiro ou de quaisquer outros benefícios
. a obtenção ou a tentativa de obtenção de informações de forma indevida
. os que atentam contra valores morais ou sociais
. o furto, o dano, o estelionato e todo tipo de ação contra o patrimônio de informação de um indivíduo ou empresa

 Cuidado!! O perigo está diante de você... na tela do seu computador.

Porém, mais do que coibir pontualmente a prática daqueles delitos, a Internet necessita de uma base legal e ética capaz de afastar os pretendentes ao golpe do baú, aqueles que visam o enriquecimento rápido e inconseqüente, os que só a utilizam como instrumento de um jogo financeiro tipo bolsa-de-valores procurando retirar a maior vantagem possível da rede no menor espaço de tempo, sem qualquer compromisso com terceiros envolvidos.
Difícil será, certamente, estabelecer aquela base legal e ética da Internet no atual "boom" de modismo conectivo. Não existe uma legislação específica para a Rede que, por outro lado, não pode parar aguardando regulamentação. Espera-se, somente, que uma legislação possa vir a ser definida para a Internet, considerando a sua sempre urgente e contínua mutação. Isto se tornará uma exigência para o futuro do comércio eletrônico, para o treinamento a distância, para o entretenimento e suas características específicas no uso do som e da imagem.
Enquanto isso, a Internet precisa ser capaz de se auto-governar, legal e eticamente, e isto é algo mais do que meras regras de netiqueta... Significa, entre outras coisas, discutir amplamente os mecanismos legais existentes e a feitura de outros, mais apropriados para a Rede. É tão importante preservar a liberdade e a livre-iniciativa que existe na Internet quanto afastar os bandidos, para que o faroeste seja pacificado em nome da lei e da ética.

Conheça DataGramaZero: http://dgz.org.br/

sábado, 26 de junho de 2010

A Geopolítica Hollywoodiana, ou algumas considerações sobre Alice no País das Maravilhas e Avatar

Sucessos recentes da indústria cinematográfica hollywoodiana, Alice no País das Maravilhas e Avatar, cada um a seu modo, tocaram em pontos delicados da pauta política das relações externas do governo dos Estados Unidos da América.
Avatar, filme dirigido pelo premiado diretor James Cameron – que há pouco esteve no Brasil apoiando indígenas e comunidades ribeirinhas, na região Amazônica, contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte; um cenário similar ao do filme – traz uma perspectiva crítica das relações entre certo tipo de imperialismo econômico e militarista e comunidades que, sem aparatos tecnológicos e outros recursos, tendem a ser subjugadas por aquele. É possível relacionar o relato fílmico de Avatar ao surgimento da antropologia, no século XIX. A ciência antropológica, em seu nascedouro, foi utilizada amplamente como instrumento de dominação dos povos afetados pelo imperialismo colonialista da época. Avatar sugere um processo de digressão do diretor. Para este, as potências ocidentais deveriam avaliar suas dinâmicas históricas e realizar um processo de mea culpa pelos erros do passado.
Já Alice..., filme do aclamado diretor Tim Burton, é uma releitura adaptada da obra homônima do escritor inglês Lewis Carroll – cujo texto original podemos entender como uma irônica metáfora de um mundo carregado de moralismos. Tal como no livro, o filme é ambientado na Inglaterra Vitoriana. A narrativa de Burton refere-se ao retorno, anos depois, da jovem e rebelde Alice ao País das Maravilhas, aonde lutará para destituir do poder a despótica Rainha Vermelha e restituir a ordem e a paz.
Bem, até aqui nenhuma novidade. Os mais diversos discursos políticos têm permeado, implícita ou explicitamente, o cinema desde O Nascimento de uma Nação (espécie de ode a supremacia racial branca nos EUA, dirigido pelo diretor D. W. Griffith) até o insuspeito Buena Vista Social Club (do diretor Win Wenders) - aonde as filmagens das ruas de uma decaída Havana e as memórias dos músicos, sempre trançando um quadro em que a música cubana e seus artistas eram mais reconhecidos em uma sociedade pré-Revolução, são verdadeiros panfletos contra o governo Fidel Castro-. A máxima “Imparcial só a câmera desligada!”, do cineasta brasileiro Silvio Tendler, é perfeitamente coerente quando nos referimos à contextos fílmicos.
Assim, prestando mais atenção aos dois filmes, apreendemos que ambas as personagens centrais possuem trajetórias de vida que tangem “curiosamente” a questões inerentes a atual política externa do governo americano.
Em Avatar, a personagem Jack Sully, um veterano de guerra, teria ficado paralítico após ações militares... na Venezuela!! Sim. O país do ditador Hugo Chaves, segundo o filme, teria se tornado um palco de intervenções armadas dos EUA. Aliás Jack não é o único: o famigerado Coronel Miles Quaritch e vários outros mercenários também teriam atuado por lá. A história narrada em Avatar assume, assim, ares futurológicos ao prever uma intervenção da maior potência militar do mundo ao país sulamericano. Essa “previsão” é interessante quando sabemos que o governo Chaves e sua Revolução Bolivariana, projeto de cunho “socialista” e “revolucionário” que se propagou para outros países da América Latina, são vistos com maus olhos pela política externa norteamericana, atualmente sob o comando da Secretária de Defesa Hillary Clinton.

                           Jack Sully e seu Avatar: ele teria ficado paralítico durante ações militares na Venezuela.

Por seu turno, Tim Burton, põe a jovem e intrépida Alice, após esta conseguir restaurar a ordem no País das Maravilhas, no papel de uma corajosa desbravadora dos mares cuja ambição é estabelecer linhas de comércio com... a China. Logo a China, atual concorrente dos EUA nas relações comerciais com o resto do mundo, e, com a qual os norteamericanos tiveram e têm várias diferenças não equacionadas nos fóruns políticos e econômicos internacionais.

              A jovem Alice: após restaurar a paz no País das Maravilhas, parte em busca do comércio com a China.

Porém, no ambiente histórico vivido por Alice, o século XIX, a China era um império fechado e sem o desenvolvimento possibilitado pela Revolução Industrial europeia e estadunidense. Como a fictícia Alice, aventureiros ocidentais apoiados por seus governos aportaram em solo chinês. No decorrer do século, o império seria subjugado aos interesses estrangeiros.
Localizadas em momentos históricos distintos, o passado Vitoriano e o “futuro distante”, as narrativas de Alice no País das Maravilhas e Avatar são condicionadas por questões políticas do presente. Nestas, podemos ver refletidas as políticas dos EUA no campo das relações internacionais.
Assim, a Indústria dos Sonhos que nos move e emociona, em sua formatação hollywoodiana, revela sua plena capacidade de continuar sendo o braço mais fluido do pensamento estratégico da sempre ambiciosa geopolítica estadunidense.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

...Nina Simone - I Put A Spell On You

Pianista, cantora e compositora, Eunice Kathleen Waymon, que ficou conhecida como Nina Simone, nasceu em 21 de fevereiro de 1933, em Tryon, Carolina do Norte, Estados Unidos.
Mostrando versatilidade vocal, navegava entre o gospel, soul, blues, jazz e folk. Nina chamou a atenção de vários artistas como George Harrison, Bob Dylan, os irmãos Gershwin, dentre outros.
Ativista pelo direitos civis dos cidadãos negros americanos, compôs Mississipi Goddamn após o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham, em 1963. A música tornar-se-ia, ao longo, hino movimento negro nos EUA.
Em 2003, aos 70 anos de idade, Nina juntou-se aos grandes Mestres como Hendrix e Nat King. Sua música, porém, continua a nos encantar.



Conheça um um pouco mais sobre a Diva em:
http://www.ninasimone.com/  (The Nina Simone: Experience)