Eu amo a rua. Com esta singela, mas expressiva, declaração João do Rio – pseudônimo de João Paulo Barreto, um dos maiores cronista do Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX – principia a sua obra mais conhecida: A Alma Encantadora das Ruas, de 1908. O amor pela vida na urbe, suas histórias, seus habitantes, é relatado na obra. Tal paixão pelas vivências no espaço público representado pelas ruas é, também, encontrada com tamanha intensidade em Carybé – cujo nome verdadeiro era Hector Julio Paride Bernabó, um argentino de Lanús, região da Grande Buenos Aires.
Dois momentos de Salvador: acima, a cidade real na primeira metade do século XX. Abaixo, a cidade transformada em arte pelos traços de Carybé.
Carybé externou em suas obras o gosto pelo contato com os tipos populares, retratados em mercados, nas rodas de capoeira, nas festas de rua e no lócus sagrado rito religioso afrobrasileiro, o Candomblé, na cidade de Salvador, Bahia. Assim, como o flâneur descrito por João do Rio, Carybé era individuo em constante movimento. Aberto para captar as cenas populares que, com aguda sensibilidade, imortalizou nos traços de suas imagens artísticas.
Cena típica de um mercado (acima) e alusão a uma roda de samba (abaixo) : o povo em suas atividades na utilização do espaço público. Representações do cotidiano da antiga Salvador como fonte de informações e lugar de memória nas obras de Carybé.
As imagens de Carybé são carregadas de informações. As imagens artístico-pictóricas, figurando como acepção da realidade, admitem inferir uma concepção de meta-representação à medida que sua produção já é a representação do mundo do artista visto através de suas pinceladas, como bem argumentam Giovana Deliberali e Maria de Fátima Gonçalves*. E Carybé nos transmite, por meio de sua arte, conhecimentos sobre uma Bahia amorosa e envolvente que o encantou.
Roda de Capoeira: a cultura popular retratada na linguagem pictográfica de Carybé.
A mesma visão devocional é encontrada na pena de Jorge Amado. Este foi seu amigo de longa data. Carybé ilustraria muitos dos livros do escritor baiano. Em ambos, a alma pujante das ruas teria ressonância. O amor pelas coisas da Bahia, pela cultura popular e pela religião dos Deuses Africanos em terras brasileiras constituir-se-ia em vínculo permanente entre essas duas personalidades.
Cerimônia do Candomblé (Festa do Pilão de Oxalá): Carybé, na vida pessoal e artística, enfatizaria suas as relações com o sagrado
Sobre Carybé diria Amado: Os outros podem reunir dados físicos e secos, violentar o segredo com suas máquinas fotográficas e os gravadores e fazer em torno dele maior ou menor sensacionalismo, a serviço dos racismos mais diversos, mas apenas Carybé e ninguém mais poderia preservar os valores do candomblé da Bahia.
Carybé e Jorge Amado: personalidades irmanadas pela amor a Salvador e seus tipos populares.
Em Carybé, as cenas populares de uma, hoje mítica, Salvador são concretizadoras de memórias. A obra do artista, desta forma, consolida-se como um lugar de memória – tal qual a definição do historiador francês Pierre Nora** -. Esta poderá sempre ser acessada pela condição fenomenológica da contemplação da obra do artista.
Deixo aqui o convite: adentrar no universo imagético das ruas, da cultura popular e dos encantos e magias do candomblé da cidade de Salvador de Carybé.
Carybé em seu ateliê: arte centrada na vida dos tipos que preenchiam de vida as ruas de Salvador.
*MAIMONE, Giovana Deliberali; TÁLAMO, Maria de Fátima Gonçalves. Tratamento informacional de imagens artístico-pictóricas no contexto da Ciência da Informação. DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação – v. 9 n.2 abr. 2008.
** NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 1993.
Veja outras obras de Carybé:
Museu Afro Brasileiro de Salvador:
http://www.ceao.ufba.br/mafro/carybe.htm
O Universo Mítico de Carybé:
http://entretenimento.uol.com.br/album/carybe_afrobrasil_album.jhtm
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